domingo, dezembro 11, 2005

VIAGENS NA MINHA TERRA


Continuidade da Homenagem ao Poeta António Nobre extraído da sua obra publicada “Só”. Última posta:

(…)E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso… queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los…
Era uma dor de coração.

Depois, cansados da viagem,
Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar…)
Vinha a Sr.ª Ana das Dores
«Que hão-de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar….»

Oh! Ingénuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir…
O cuco da sala, cantando…
(Mas o Cabanelas, entrando,
Vendo a hora: «É preciso partir».)

Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No firmamento português:
E ela traça-me o meu fado
Serás Poeta e desgraçado!
Assim se disse, assim se fez.

Meu pobre Infante, em que cismavas,
Porque é que os olhos profundavas
No céu sem par do teu País?
Ias, talvez, moço troveiro,
A cismar num amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz…

E o carro ia aos solavancos.
Os passageiros, todos brancos,
Ressonavam nos seus gabões:
E eu ia alerta, olhando a estrada,
Que em certo sítio, na Trovoada,
Costumavam sair ladrões.

Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!
Fazer parte duma quadrilha,
Rondar, à lua, entre pinhais!
Ser Capitão! Trazer pistolas,
Mas não roubando, - dando esmolas
Dependuradas dos punhais…

E a mala-posta ia indo, ia indo,
O luar, cada vez mais lindo,
Caía em lágrimas, - e, enfim,
Tão pontual, às onze e meia,
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!

Lá vejo ainda a nossa Casa
Toda de lume, cor de brasa,
Altiva, entre árvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.

E então, Jesus! Quantos abraços!
- Qu’é dos teus olhos, dos teus braços,
Valha-me Deus! Como ele vem!
E admirada, com as mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Belém!

E os teus estudos, tens-me andado?
Tomara eu ver-te formado!
Livre de Coimbra, minha flor!
Mas vens tão magro, tão sumido…
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?

No entanto entrava no meu quarto:
Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquele! E a água, Jesus!
E os lençóis! Rico cheiro a linho!
- Vá, dorme, que vens cansadinho.
Não adormeças com a luz!

E eu deitava-me, mudo e triste.
(-Reza também o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim….
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: - Apaga a luz! – Que rala!
Descansa, minha Avó, que sim!

Ora, às ocultas, eu trazia,
No seio, um livro e lia, lia,
Garret da minha paixão…
Daí a pouco a mesma reza:
- Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz!.... (E eu ainda… não!)

E continuava, lendo, lendo…
O dia vinha já rompendo,
De novo: - Já dormes, diz?
-Bff!.... e dormia com a ideia
Naquela tia Doroteia
De que fala Júlio Dinis.

Ó Portugal da minha infância,
Não sei que é, amo-te a distância,
Amo-te mais, quando estou só…
Qual de vós não teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó?

Paris, 1892

7 Comments:

Blogger Luís Monteiro da Cunha said...

Passei apenas para te desejar uma óptima semana e produtiva aqui no In Mente. lol

Vejo que já postaste a continuação do "Só" do António Nobre.
Voltarei para ler com mais calma e comentar.

Abraço

domingo, dezembro 11, 2005 11:13:00 da tarde  
Blogger Castor (moi-je...ehe, ehe) said...

António Nobre morreu em 1900, com 33 anos, vítima de tuberculose. Hoje, dia 11 de Dezembro de 2005, 105 anos passados e com bandeiras de erradicação, a tuberculose voltou em força e ainda por cima num hospital... rôda-se pró bacilo!!!

segunda-feira, dezembro 12, 2005 1:29:00 da manhã  
Anonymous ana said...

Belo poema do António Nobre. São nas horas de solidão que sentimos mais falta daqueles ou daquilo que mais amamos. Beijinhos

segunda-feira, dezembro 12, 2005 11:55:00 da manhã  
Anonymous soslayo said...

Castor, de facto ao ler este poema do António Nobre e ao querer fazer-lhe uma homenagem, pensei nisso mesmo. Que depois de tantos anos e com a evolução da medicina ainda campeia essa doença que levou milhares de pessoas. Subjacente a esta posta, estava mesmo essa intenção e o motivo de gostar também muito deste poema, que nos relata a vida da aldeia e estando longe de casa em París. Um grande abraço.

segunda-feira, dezembro 12, 2005 12:09:00 da tarde  
Anonymous Maria Papoila said...

Este poema de António Nobre que descreve desde Novelas a viagem até às faldas do Marão, passando por uma das "casas" do Zé do Telhado, deu cor às minhas viagens de infância. Beijo

terça-feira, dezembro 13, 2005 11:43:00 da manhã  
Blogger pisconight said...

O que é nacional é bom!!! E mais nada!!!
;)

terça-feira, dezembro 13, 2005 5:34:00 da tarde  
Blogger soslayo said...

Pisconight, gosto muito das pessoas menos jovens! Aprendemos muito com elas. Existe agora, uma espécie de rótulo ao antigo e isso chama-se "cota". Também (quem sabe?) lá chagarei... Por isso continuo a tratar todos por igual! Um abraço.

terça-feira, dezembro 13, 2005 6:10:00 da tarde  

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